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Um shoujo que quebra os limites da demografia.

E mais uma vez vamos para o velho impasse sobre shoujos. Como se não bastasse mangas como Chobits, Red Garden, Madoka Magica e Orange que confundem a cabeça do leitor com suas polemicas sobre serem mangas shoujo ou seinen, agora vem Limit para acabar de zonear tudo.

Limit é um manga “shoujo” da mangaka Keiko Suenobu, mesma autora de Vitamin, outro manga shoujo bem polemico e conhecido dos leitores da demografia e no caso de Limit, diferente de Chobits, Madoka e Orange, poderia ser mais facilmente ser aceito como seinen do que estes.

Spoilers in blue:


Limit conta a história de Konno Misuki, uma adolescente que procura viver a vida sem se envolver com problemas, uma verdadeira “Maria-vai-com-as-outras”. Sempre andando com a garota mais popular da escola e suas colegas, Konno busca viver de modo a sempre evitar qualquer tipo de conflito que abale sua vida perfeita como uma estudante normal.

Porém toda essa perfeição cai por terra depois que em uma excursão escolar, o ônibus acaba acidentando e matando a maioria dos integrantes, ficando presa ela e as poucas sobreviventes em uma área totalmente remota e impossível de retornar a pé.

Enquanto aguardam resgate, as coisas se tornam mais complicadas quando uma das sobreviventes resolve se tornar a líder. Morishige é a típica aluna vitima de bullying por diversos fatores (gorda) e que em sala de aula nunca se impôs. Agora, armada de uma foice, Morishige revela o seu lado psicótico tanto pelo seu modo vingativo e totalitário de agir quanto a fatos de ter em seu diário o dia-a-dia em que sofria na escola por causa de alunos como as amigas de Konno e inclusive a própria exatamente por evitar conflitos com seu grupo social, “sacrificando” Morishige que tudo o que mais queria é ver todos mortos e que suas mortes foram “punições divinas” dadas por “deus” enquanto a mesma estava em volta a um pentagrama de satanismo (oi?).

Agora pressionada, Konno tem de fazer escolhas que não dão brecha para evitar conflitos e tentar sobreviver em um grupo totalmente oposto do que vivia.

Apesar de ser um prato cheio para quem gosta de debater sobre bullying (uma pratica que convenhamos, existe desde que o mundo é mundo e que ganhou destaque nessa geração vitimista), Limit é um retrato do que é o ser humano. Apesar de Konno “ir conforme o vento leva”, ela não é (ao menos no volume 01) aquilo que vemos em comum em marias-vão-com-as-outras, ou seja, ela não transmite falsidade e seu modo de viver já é um reflexo do que ela viveu em sociedade. Dificilmente seria uma personagem odiada.

Já Morishige, por mais que os coitadistas venham a apontar o dedo para os colegas de classe como culpados pela sua atual postura, o fato é que o bullying para ela foi só é um gatilho para quem tem tendências psicóticas e ela mesma escolheu continuar alimentando o ódio, se tornando uma completa louca, além do fato que ao menos no primeiro volume não é revelado se o fator família (que é outro fator importantíssimo nesses casos) influenciou para que Morishige chegasse a esse estado lamentável. Não é uma defesa ao bullying, mas o fato é que apenas mentes fracas caem em desgraça, senão jamais a história teria grandes homens e mulheres negras que foram atormentados com bullying e coisas piores e que se fizeram de grande importância na história da humanidade. Seriam psicopatas por natureza, então, menos coitadismo ao tema.

Mas saindo dessa polemica, falemos de outras. Afinal, o que é Limit? Bem, tecnicamente falando, os traços em sí são obviamente shoujos e nas primeiras páginas, a sensação é de que seria um shoujo comum devido aos traços semelhantes aos encontrados em shoujos comuns, porém particularmente melhores que muitos deles, melhor mesmo que o famoso Orange. Porém após a tragédia do ônibus, os limites da demografia começam a ser quebrados.

Em todos os sentidos, a tragédia do ônibus se torna um “divisor de águas”. O traço, ainda que remeta a shoujo, começa a ficar tenso e carregado, sem aquelas firulas características de shoujo e com mais detalhes pretos do que em qualquer shoujo já visto (ao menos no mercado nacional e se você não considerar Red Garden como shoujo). Desse ponto em diante, o clima carregado e tenso e com cenas de mortos chegam próximos a características de seinen, apesar de não serem cenas tão brutais como é comum para seinens, mas chegam a ser impactantes.

O que sobra de “shoujo” para Limit é o desenvolvimento característico da demografia, onde vemos o pensamento e sentimento dos personagens aflorarem. Diferente da crença popular, Shoujo não é uma demografia especificamente sobre romance, mas sim onde os sentimentos dos personagens são explorados bem mais do que um shonen ou seinen da vida. e sentimentos não se restringem a romance.

O mais interessante em Limit é o fato de que mesmo sendo um manga que tem as caracteristicas de explorar sentimentos como um shoujo qualquer e que como na maioria dos mangas do gênero, esses sentimentos são normalmente focados em personagens femininas, isso acaba se tornando irrelevante, ou seja, não importa se o protagonista é homem ou mulher, mas sim que a história é boa a ponto de que o sentimentalismo não incomoda, diferente de Sailor Moon onde o sentimentalismo de Usagi chega a ser cansativo demais.

Quanto a versão nacional, Limit foi lançado na mesma época que Terra Formars e eles pegaram o inicio da “crise do papel”, com isso tiveram que usar papel offset ao invés do brite 52. Mesmo com a preocupação de que poderia sair caro demais como ficaram Chobits e Hellsing a R$16,90, Limit conseguiu manter o preço previsto de R$13,90. Porém os papeis são diferentes, mesmo comparado a Terra Formars, o papel é bem diferente mesmo. Muito foi falado da transparência de Ultraman e Gangsta mas Ultraman é um pouco mais 00
transparente. Na verdade a questão é que Ultraman usa muitos planos de fundo brancos e Limit mesmo sendo shoujo, que normalmente usa muito branco, tem mais detalhes em preto que camuflam a transparência, o que ocorre de certa maneira com Terra Formars, porém nem ele ou Ultraman me deram a sensação de leveza e fragilidade que o papel de Limit me deu, ficava com a sensação que o papel derreteria em minhas mãos.

Sem sombra de duvidas, não deixe de conferir Limit, mesmo que você não goste de shoujos, este é um verdadeiro “shoujo pra macho”. Leia sem reservas.